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Correntes de pensamento geográfico e a pandemia da Covid-19
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Categorias: Laviniense

Antes de se fazer uma análise de como as principais correntes de pensamento geográfico podem contribuir para análise da pandemia e suas consequências, vamos iniciar discutindo, como o fez Szamósi (1986), discorrendo sobre a capacidade de raciocínio do ser humano. Para esse autor “todos os seres vivos do nosso planeta experimentam mudanças ambientais, segundo padrões periódicos, cíclicos. Esses padrões são criados pela mecânica interna do sistema solar (p. 18). “A força do cérebro [...] está em sua habilidade de desenvolver modelos abstratos do ambiente externo (p. 30). “O cérebro não modela diretamente as características do ambiente. Ao contrário, os modelos são em forma de códigos abstratos [...] a informação é obviamente arquivada no sistema nervoso, e existe alguma forma de conhecimento interno ao meio ambiente. É esse conhecimento interno ao meio ambiente. É esse ‘conhecimento’ que nós livremente chamamos de modelo” (p. 31).

Partindo dessas premissas, podemos observar que o ser humano se difere dos outros animais pela sua capacidade de sobrevivência em faculdades específicas, essa capacidade de “pensar” permite ao ser humano não apenas conviver com a sua realidade, mas também permite conhecê-la. Conhecer a realidade significa compreendê-la e explicá-la, e é justamente isso que vem acontecendo nos últimos meses com relação à pandemia da Covid-19. Isso porque o conhecimento científico não pode estabelecer verdades absolutas nem se propor a ser definitivo, mesmo que, dependendo da base doutrinária do conhecimento produzido, a condução do conhecimento possa variar: para as correntes positivistas e neopositivas, o conhecimento dentro da Geografia se faz a partir do rigor da linguagem e do distanciamento do sujeito e objeto.

Para as correntes geográficas ligadas ao materialismo histórico, a pandemia da Covid-19 está subjacente à compreensão dos fenômenos que, por sua vez, manifestam-se por meio de suas contradições internas; para as correntes do pensamento geográfico, ligada à fenomenologia, a historicidade da pandemia da Covid-19 perde a importância, emergindo muito mais a relação sujeito-objeto, com a supremacia do sujeito, em uma relação holística de abordagem. Nesse cenário, Bourdieu (1966, p. 15) nos auxilia em nossa análise da teoria das correntes geográficas diante da pandemia da Covid-19 ao afirmar que:

 

[...] não podemos capturar a lógica mais profunda do mundo social a não ser submergindo na particularidade de uma realidade empírica, historicamente situada e datada, para construí-la, porém, como “caso particular do possível” [...] isto é, como figura em um universo de configurações possíveis.

 

Para dar trilho às principais correntes de pensamento geográfico que podem contribuir para análise da pandemia e suas consequências, devemos lembrar algumas atividades básicas que Libault (1994) chamou de níveis da pesquisa geográfica. Utilizando-nos da terminologia desse autor vamos adotar em nosso texto a sua sequência e propor descrições mais adequadas, ao nosso trabalho.

A primeira atividade é a compilatória: ela reflete o trabalho de coleta e de compilação dos dados cujo arranjo inicial requer do pesquisador uma decisão que leve em consideração a questão ou problema que precisa ser respondido, nesse caso as consequências da pandemia da Covid 19.

A segunda atividade iremos chamar de correlatória: a partir do momento em que consideramos que o levantamento dos dados foi realizado, torna-se necessário estabelecer os parâmetros para a homogeneização desses dados e para a comparabilidade das unidades adequadas.

Em seguida, a atividade que será realizada é aquela que chamamos de semântica: a ela corresponde o trabalho de combinar, sinteticamente, todas as variáveis, os elementos ou os fenômenos que foram compilados e relacionados, para se fazer a seleção e a operacionalização sistemática dos agrupamentos e de suas particularidades.

A última atividade que se pode propor é aquela que chamamos normativa: nesse momento, faz-se necessário o refinamento da informação geográfica com todas as suas componentes. Assim a base teórica, o encaminhamento metodológico e elaboração de raciocínios para a análise tornam-se necessariamente mais claros em relação a pandemia da Covid-19.

Assim sendo, observamos que, ao longo dos tempos, a Geografia se mostrou como um campo do conhecimento que busca constantemente a compreensão do mundo e suas contradições nas relações sociais, na apropriação e uso do meio ambiente. No decorrer do seu processo de desenvolvimento e construção, evidenciam-se diferentes formas de perceber, pensar e refletir os fenômenos socioespaciais, sendo cada uma delas geradoras de linhas metodológicas, as quais são fundamentais no processo de construção do conhecimento geográfico.

Pensando a Geografia Contemporânea como uma ciência que busca a compreensão das relações socioespaciais, há de se entender que as maneiras de se analisar esses processos assumem diferentes formas ao longo do tempo. A construção do pensar e fazer geografia, nos últimos tempos, teve o Marxismo, a tradição de pensamento que influenciou mais intensamente a formulação de teorias na geografia no contexto contemporâneo.

Dessa maneira, podemos concluir que, entre as principais correntes de pensamento geográfico que podem contribuir para análise da pandemia e suas consequências, assinalamos em nosso trabalho a Geografia Humanista/Humanística, cuja definição repousa em bases teóricas nas quais são ressaltadas e valorizadas as experiências, os sentimentos, a intuição, a intersubjetividade e a compreensão das pessoas sobre o meio ambiente em que habitam, buscando compreender e valorizar esses aspectos.

De acordo com Tuan (1980), a Geografia Humanista é a tendência do pensamento geográfico que estuda as experiências de indivíduos e grupos em relação ao espaço com o intuito de compreender seus comportamentos e valores. Procura um entendimento do mundo humano através do estudo das relações das pessoas com a natureza, do seu comportamento geográfico, bem como dos seus sentimentos e ideias a respeito do espaço e do lugar (TUAN, 1980).

 

Clodoaldo Matias 

Professor da disciplina de Geografia - de 6º ao 9º ano

 

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, P. As bases metafísicas da ciência moderna. Brasília: UnB, 1991.

LIBAULT, A. Os quatro níveis da pesquisa geográfica. Geocartografia: São Paulo, 1994.

SZAMOSI, G. Tempo e espaço: as dimensões gêmeas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

TUAN, Y. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Tradução: Lívia de Oliveira. São Paulo: Difel, 1980.

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